domingo, 6 de abril de 2014

A ecologia de saberes no Paraúna: conceito e contextualização regional do projeto



Segundo o pesquisador Boaventura de Souza Santos, atualmente persiste no mundo sistemas “monoculturais” de produção de conhecimentos, bens e de práticas sócio-culturais que promovem a “morte” da diversidade cultural e ambiental e a “descredibilização” de saberes e fazeres que não se enquandram ao modo de produção capitalista.

Propondo a “reinvenção” do pensamento crítico e emancipatório ocidental, Santos indica a importância de desenvolvermos métodos e conhecimentos que valorizam experiências populares e tradicionais diversas, rurais e urbanas, individuais e coletivas para, a partir delas, desenvolvermos “saberes ecológicos” que, apesar de não desconsiderarem a importância da economia e da ciência na contemporaneidade, são capazes de promover caminhos alternativos à realidade “monocultural” que se desenha na contemporaneidade.

Tomando essa proposta como principal referência teórica e política do projeto, acreditamos que a bacia do Rio Paraúna é local privilegiado para realizar um projeto piloto de criação de uma experiência concreta de “ecologia de saberes”. Isso porque a bacia do Rio Paraúna delimita um território que passou por intensos processos de exploração desde o século XVIII. Limite de demarcarção do antigo Distrito de Diamantino entre 1730 e 1835, do Rio Paraúna já foram extraídos diamante, ouro, salitre, areia de quartzo, peixes, água para consumo humano, animal e para geração de energia elétrica, além de ser palco de diversas outras transformações que acompanham o desenvolvimento histórico de Minas Gerais, tais como: supressão da mata nativa para ampliação de pastos e produção de carvão vegetal, ampliação das culturas de eucalipto, abertura de estrada rodoviária federal que liga o sertão central mineiro ao alto Jequitinhonha, enorme êxodo rural, supressão de escolas rurais e inexistência de meios de transporte público para as populações rurais.

Essas características são encontradas em diversas localidades e regiões de Minas e do Brasil, no entanto, o território foco do projeto apresenta uma peculiaridade quando comparado à grande maioria dos municípios mineiro; a população da zona rural do município de Presidente Juscelino é, em percentual quantitavo, maior do que a população da zona urbana. Isso significa dizer que mesmo sofrendo uma grande pressão cultural e econômica, existem práticas, saberes e condições sócio-econômicas que permitiram que os homens do campo deste município permanecessem na zona rural até a atualidade. 

Por outro lado, a Vila Alexandre Mascarenhas, pertencente a Gouveia, representa a maior comunidade rural deste município. Situado nas margens da BR 259 a 45 quilometros de distância da sede urbana municipal, a vila Alexandre Mascarenhas, popularmente conhecida como o “Arraial do Crime”, destaca-se na região como um local que concentra significativa produção, beneficiamento e comercialização frutas, plantas e produtos típicos do cerrado, tais como: a mangaba e seus derivados, o pequi e seus derivados, a pimenta e seus derivados, manga, pinha e centenas de plantas utilizadas para fins medicinais e decorativos.

Ligados e, ao mesmo tempo, separados pelo rio Paraúna, a sede urbana de Presidente Juscelino e a Vila Alexandre Mascarenhas, também antigamente conhecidos como Parauna de Baixo e Paráuna de Cima respectivamente, estão a aproximadamente 05 quilômetros de distância. Atualmente, boa parte da população que residente em uma localidade trabalha na outra, diversas crianças e jovens da Vila Alexandre estudam em Presidente Juscelino, todo o lixo produzido na Vila Alexandre Mascarenhas é levado para o aterro de Presidente Juscelino e grande parte da população que carece de atendimento médico na Vila também vai para o município vizinho. Estes dados mostram que a relação entre essas duas localidades é bastante forte, sendo que ambas representam os maiores aglomerados populacionais situados às margens do Rio Paraúna.

Com população permanente de aproximadamente 3200 mil habitantes (2000 em Presidente Juscelino e 1200 da Vila Alexandre) estas localidades recebem todos os estudantes de ensino fundamental e médio da zona rural banhada pelo baixo Paraúna e apresentam condições geográficas e sócio-econômicas que fazem com que estes lugares sejam um local privilegiado para desenvolvimento de uma experiência piloto e inovadora de um projeto educativo que tem como principais alvos o fortalecimento de laços regionais, a preservação do rio Paraúna e a valorização de saberes/tradicionais que favorecem a diversidade cultural e ambiental, especialmente aquela que está ligada à vida rural.

Para quem se interessar sobre o conceito de Ecologia de Saberes, procure o livro de referência conceitual do projeto: SANTOS, Boaventura Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007

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