Segundo
o pesquisador Boaventura de Souza Santos, atualmente persiste no mundo sistemas
“monoculturais” de produção de conhecimentos, bens e de práticas sócio-culturais
que promovem a “morte” da diversidade cultural e ambiental e a
“descredibilização” de saberes e fazeres que não se enquandram ao modo de
produção capitalista.
Propondo
a “reinvenção” do pensamento crítico e emancipatório ocidental, Santos indica a
importância de desenvolvermos métodos e conhecimentos que valorizam
experiências populares e tradicionais diversas, rurais e urbanas, individuais e
coletivas para, a partir delas, desenvolvermos “saberes ecológicos” que, apesar
de não desconsiderarem a importância da economia e da ciência na
contemporaneidade, são capazes de promover caminhos alternativos à realidade
“monocultural” que se desenha na contemporaneidade.
Tomando
essa proposta como principal referência teórica e política do projeto,
acreditamos que a bacia do Rio Paraúna é local privilegiado para realizar um projeto piloto de criação de uma experiência concreta de “ecologia
de saberes”. Isso porque a bacia do Rio Paraúna delimita um território que
passou por intensos processos de exploração desde o século XVIII. Limite de
demarcarção do antigo Distrito de Diamantino entre 1730 e 1835, do Rio Paraúna
já foram extraídos diamante, ouro, salitre, areia de quartzo, peixes, água para
consumo humano, animal e para geração de energia elétrica, além de ser palco de
diversas outras transformações que acompanham o desenvolvimento histórico de
Minas Gerais, tais como: supressão da mata nativa para ampliação de pastos e
produção de carvão vegetal, ampliação das culturas de eucalipto, abertura de
estrada rodoviária federal que liga o sertão central mineiro ao alto
Jequitinhonha, enorme êxodo rural, supressão de escolas rurais e inexistência
de meios de transporte público para as populações rurais.
Essas
características são encontradas em diversas localidades e regiões de Minas e do
Brasil, no entanto, o território foco do projeto apresenta uma peculiaridade
quando comparado à grande maioria dos municípios mineiro; a população da zona
rural do município de Presidente Juscelino é, em percentual quantitavo, maior
do que a população da zona urbana. Isso significa dizer que mesmo sofrendo uma
grande pressão cultural e econômica, existem práticas, saberes e condições
sócio-econômicas que permitiram que os homens do campo deste município
permanecessem na zona rural até a atualidade.
Por outro lado, a Vila Alexandre
Mascarenhas, pertencente a Gouveia, representa a maior comunidade rural deste
município. Situado nas margens da BR 259 a 45 quilometros de distância da sede
urbana municipal, a vila Alexandre Mascarenhas, popularmente conhecida como o “Arraial
do Crime”, destaca-se na região como um local que concentra significativa produção,
beneficiamento e comercialização frutas, plantas e produtos típicos do cerrado,
tais como: a mangaba e seus derivados, o pequi e seus derivados, a pimenta e
seus derivados, manga, pinha e centenas de plantas utilizadas para fins
medicinais e decorativos.
Ligados
e, ao mesmo tempo, separados pelo rio Paraúna, a sede urbana de Presidente
Juscelino e a Vila Alexandre Mascarenhas, também antigamente conhecidos como
Parauna de Baixo e Paráuna de Cima respectivamente, estão a aproximadamente 05
quilômetros de distância. Atualmente, boa parte da população que residente em
uma localidade trabalha na outra, diversas crianças e jovens da Vila Alexandre
estudam em Presidente Juscelino, todo o lixo produzido na Vila Alexandre
Mascarenhas é levado para o aterro de Presidente Juscelino e grande parte da
população que carece de atendimento médico na Vila também vai para o município
vizinho. Estes dados mostram que a relação entre essas duas localidades é
bastante forte, sendo que ambas representam os maiores aglomerados
populacionais situados às margens do Rio Paraúna.
Com população permanente de aproximadamente 3200 mil
habitantes (2000 em Presidente Juscelino e 1200 da Vila Alexandre) estas
localidades recebem todos os estudantes de ensino fundamental e médio da zona
rural banhada pelo baixo Paraúna e apresentam condições geográficas e
sócio-econômicas que fazem com que estes lugares sejam um local privilegiado
para desenvolvimento de uma experiência piloto e inovadora de um projeto
educativo que tem como principais alvos o fortalecimento de laços regionais, a
preservação do rio Paraúna e a valorização de saberes/tradicionais que
favorecem a diversidade cultural e ambiental, especialmente aquela que está
ligada à vida rural.
Para quem se interessar sobre o conceito de Ecologia de Saberes, procure o livro de referência conceitual do projeto: SANTOS, Boaventura Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007
Para quem se interessar sobre o conceito de Ecologia de Saberes, procure o livro de referência conceitual do projeto: SANTOS, Boaventura Sousa. Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007
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